carta a N

Ontem tive o prazer de receber um email de um correspondente de longa data de quem não tinha noticias à quase um ano.

Apesar de nunca nos termos encontrado pessoalmente, nutro por N um grande carinho.

“Querido N;

Obrigada pelo tempo que me dispensaste ao partilhar os teus pensamentos.

Não pude deixar de reparar que apesar de o tema, não referiste nem uma vez a tua namorada…

Não achas estranho evitar falar de alguém que supostamente preenche grande parte dos teus pensamentos e emoções? Talvez te tenhas apenas acomodado ao conforto de ter alguém… Mas quem sou eu para o questionar…

Todos corremos atrás da felicidade. Corremos, tropeçamos, levantamo-nos ainda aos trambolhões e continuamos a correr, sem reparar que ela esteve sempre ali, em nós ou junto de nós, ao nosso alcance.

Aprender a não expectar…

É quase pedir à Humanidade que anule a sua essência, mas acredito que seria a solução para muito descontentamento.

Não expectar não pressupõe o fim da busca, pelo contrário, fomenta-a de uma forma mais coerente, mais fiável. Elimina-se mais uma variável, mais qualquer coisa que poderia correr mal… ou pelo menos como nós esperaríamos que corresse.

Sem expectativa não há desilusão. Sem expectar tudo o fizermos terá sempre o seu valor intrínseco independentemente do retorno que possivelmente tivesse.

Mas somos Humanos, bichos pouco domados no treino da mente… com um ego enorme, prontos a sugar a atenção que nos prestam.

E sofremos.

Quando nos sentimos incompletos tratamos logo de encontrar um elemento para preencher essa falta… um cão, um companheiro, um amigo, um filho…

Somos realmente sociaveis, comandados em grande parte pela herança genética e cultural da nossa espécie, quando estamos insatisfeitos procuramos sexo, comida, distracção… ocupamos a nossa massa cinzenta para esta não mais nos incomodar com perguntas, quando deveríamos era fazer as perguntas certas…

Porque é que eu preciso de um parceiro sexual diferente?

Porque é que eu estou aborrecido?

Porque quero eu ter um filho?

E surgirão com certeza mais perguntas em resposta;

Será que já exploramos o suficiente no nosso relacionamento?

Será que utilizo todas as minhas capacidades intelectuais e físicas disponíveis?

(à questão do filho, enquanto mulher, não consigo colocar mais questões, a herança genética fala mais forte… na maioria das ocasiões as hormonas falam bem alto)

E se nos “melhorarmos” com inteligência e vontade podemos ter a certeza que estamos a contribuir para que lentamente a ordem se estabeleça de novo.

Espero eu.”

Hoje acordei muito New Age, que me perdoem os mais cépticos.

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