carta a N

12 Maio, 2007 - Leave a Response

Ontem tive o prazer de receber um email de um correspondente de longa data de quem não tinha noticias à quase um ano.

Apesar de nunca nos termos encontrado pessoalmente, nutro por N um grande carinho.

“Querido N;

Obrigada pelo tempo que me dispensaste ao partilhar os teus pensamentos.

Não pude deixar de reparar que apesar de o tema, não referiste nem uma vez a tua namorada…

Não achas estranho evitar falar de alguém que supostamente preenche grande parte dos teus pensamentos e emoções? Talvez te tenhas apenas acomodado ao conforto de ter alguém… Mas quem sou eu para o questionar…

Todos corremos atrás da felicidade. Corremos, tropeçamos, levantamo-nos ainda aos trambolhões e continuamos a correr, sem reparar que ela esteve sempre ali, em nós ou junto de nós, ao nosso alcance.

Aprender a não expectar…

É quase pedir à Humanidade que anule a sua essência, mas acredito que seria a solução para muito descontentamento.

Não expectar não pressupõe o fim da busca, pelo contrário, fomenta-a de uma forma mais coerente, mais fiável. Elimina-se mais uma variável, mais qualquer coisa que poderia correr mal… ou pelo menos como nós esperaríamos que corresse.

Sem expectativa não há desilusão. Sem expectar tudo o fizermos terá sempre o seu valor intrínseco independentemente do retorno que possivelmente tivesse.

Mas somos Humanos, bichos pouco domados no treino da mente… com um ego enorme, prontos a sugar a atenção que nos prestam.

E sofremos.

Quando nos sentimos incompletos tratamos logo de encontrar um elemento para preencher essa falta… um cão, um companheiro, um amigo, um filho…

Somos realmente sociaveis, comandados em grande parte pela herança genética e cultural da nossa espécie, quando estamos insatisfeitos procuramos sexo, comida, distracção… ocupamos a nossa massa cinzenta para esta não mais nos incomodar com perguntas, quando deveríamos era fazer as perguntas certas…

Porque é que eu preciso de um parceiro sexual diferente?

Porque é que eu estou aborrecido?

Porque quero eu ter um filho?

E surgirão com certeza mais perguntas em resposta;

Será que já exploramos o suficiente no nosso relacionamento?

Será que utilizo todas as minhas capacidades intelectuais e físicas disponíveis?

(à questão do filho, enquanto mulher, não consigo colocar mais questões, a herança genética fala mais forte… na maioria das ocasiões as hormonas falam bem alto)

E se nos “melhorarmos” com inteligência e vontade podemos ter a certeza que estamos a contribuir para que lentamente a ordem se estabeleça de novo.

Espero eu.”

Hoje acordei muito New Age, que me perdoem os mais cépticos.

despromovida

9 Maio, 2007 - Leave a Response

Fui oficialmente despromovida!

Sou novamente considerada normal, com direito a atestado legal certificado em unidade hospitalar pública.

Neste sistema em que os processos dos doentes migram para parte incerta fui dada como recuperada, normal, não-mais-deprimida -do-que-um-ser-normal-num-dia-normal-neste-país-de-merda (não que eu achasse que estando noutro país, esse, menos de merda, estivesse menos deprimida), os doentes tem alta sem o médico ver o nosso processo clínico e sem nos pôr a vista em cima há mais de um ano… mas olhou para mim e vendo-me com boa cara deve ter achado;

- Esta é a mais normal que apareceu na consulta hoje…

e assim disse o Sr Dr;

- Já está boa, pode ir à sua vida!

- Estou curada!

Gostava eu de poder dizer… Estou recuperada, soa mais realista. E de preferência por muito tempo…

E hoje alguém falava insistentemente em sexo. E quanto mais falava menos me apetecia.

Concluo, cada vez com mais certeza, que o meu ponto erógeno de maior sensibilidade é o cérebro. É dura a realidade, mas a inteligência dá-me tesão. E com a crise de intelecto que sofremos vai ser cada vez mais difícil eu cair em tentação.

Custa ouvir, parece presunçoso, mas é assim que eu funciono.

Além disso este é um blog isento, portanto tenho que seguir o meu código ético e dizer o sinto;
Só a inteligência me excita. Não consigo dissociar esse predicado de alguém que me atrai fisicamente… o físico não é suficiente… e digo isto com um cariz meramente sexual, sem me envolver emocionalmente.

Fascina-me o raciocínio, a destreza mental, leva-me ao êxtase ouvir assim alguém falar… talvez por ser quase inatingível alguém assim… Já me levou à ruína emocional este meu fetiche… mas enfim.

carta a S

8 Maio, 2007 - Leave a Response

Nas minhas limpezas às caixas de email antigas, encontrei um email que enviei ao meu doce e querido S há já algum tempo a propósito de um assunto menos feliz e que nada tinha que ver com o facto de ja não estarmos juntos.

Esta foi a forma que encontrei para subtilmente lhe dizer que já não o amava só a ele, mas amava também o amor da minha vida (…) para além de outros menores;

…ninguém sabe o que nos reserva a vida… quando tudo parece perdido, descobrimos que sempre estivemos no caminho certo mas apenas não o conseguíamos ver até aí.Ninguém decide o futuro, e nós, temos todo o tempo do mundo…Sei que nem sempre é fácil e que a vida nos prega rasteiras, mas é só para ver se estamos atentos… atentos ao que realmente é importante. Para mim, o importante são as pessoas de quem gosto, a segurança emocional, a liberdade de expressão e pensamento e o conforto (ainda que não necessariamente financeiro). E para ti? Já pensaste no que é realmente importante? Eu sei que não tenho tudo o que desejo mas aprendi a amar o (…) e amo-o muito. Apesar de ele já não me dar a mesma atenção, continua a amar-me e a respeitar-me e apoia-me bastante nas minhas decisões e eu amo-o por isso, porque preciso de alguém. Se a vida fosse perfeita teríamos alguém que preenchesse todos os nossos requisitos sem que exigisse o mesmo de nós ou então, seria possível ter mais do que uma pessoa; uma para amar, outra para viajar, sair e conversar e outra para fazer sexo… e por ai fora conforme os nossos desejos. E poderíamos dizer a todas elas que gostamos delas, que amamos os diferentes aspectos que elas preenchem independentemente do seu sexo ou função.

Porque é que não podemos dizer que amamos mais do que uma pessoa se na realidade é isso que acontece? Porque é que o sentido de posse tem de colocar em causa o respeito pelo outro? Faz-me lembrar aquela pergunta clássica; “gostas mais do papá ou da mamã?”.

Gostamos, só gostamos.

Gostamos porque somos um ser de emoções e porque gostar faz parte da nossa natureza… “

Meu querido S; continuo a amar-te com um carinho muito especial, da forma estranha que sabemos e que só tu compreendes.

sonhos

5 Maio, 2007 - Leave a Response

Como sempre, hoje acordei sobressaltada com um dos meus sonhos esquisitos.

Sim, porque pelo que me contam, os meus são diferentes dos da maioria dos sonhadores!

Uns sonham a preto e branco, outros a cores, uns sentem o cheiro, outros o sabor, enfim, uma infinidade de combinações sensoriais que tornam os sonhos mais ou menos impressionantes…

Mas eu sonho a cores! Com direito a full extras!!! O que os torna muito reais e por vezes esquisitos.

Se a minha vida dava um filme, então os meus sonhos tinham direito a várias seasons em prime time.

Quando são só esquisitos e acordo sobressaltada não é mau… O pior é quando são medonhos e acordo sem ar, lavada em lágrimas e com a sensação de ter sido atropelada por um comboio.

(ultimamente sonho muitas vezes com este tema, não que tenha algo que ver com o presente raciocínio!… nunca sonhei que era atropelada por um comboio, aliás quando digo que esse sonhos são medonhos, refiro-me a medos intrínsecos, tortura psicológica, violência emocional, bem mais difíceis de esquecer depois de acordar pois reflectem a realidade e os meus piores receios.)

Os sonhos permitem-me viver fora da minha pele, levam a esquizofrenia inerente à condição humana ao expoente máximo sem prejudicar a minha existência, apenas perturbando-a levemente pelas remeniscências que deixa no corpo, pelas lembranças que despoleta vindas do nada a meio do meu dia. Ultimamente não tem sido tão frequente mas era comum acordar sabendo que tinha sonhado mas sem me recordar muito bem sobre o quê e horas depois, quando estivesse perdida nos meus pensamentos, surgiria como um clarão todo o sonho em fracções de segundo, com uma carga emocional e sensorial de atordoar qualquer um.

Aborrecido, é o cansaço que os sonhos trazem, e garanto-vos que não desaparecem nem com benzodiazepinas!

recomeçar

4 Maio, 2007 - Leave a Response

A vida é feita de recomeços… quando nos julgamos reestabelecidos, aconchegados no nosso cantinho, imaginando que nada nos irá tirar do “quente”… recomeça tudo de novo. Sentimo-nos qual “barata tonta” no auge da magnifica paulada!!!! E depois passa… deve ser de apanhar muitas pauladas… o stress pós-traumático vem rápido mas vai embora ainda mais depressa!!!! Não há tempo para carpir, é enterrar os mortos e seguir em frente. Mas por debaixo desta pele, o mal enquista e sinto que vai pustular a qualquer momento.

Aprender a não expectar.

Como poderia ter sido suavizado o meu percurso se tivesse acreditado no livro… Só agora, empoeiradas, as memórias dessa leitura parecem tão claras, tão explicitas.

O que mais me parecerá tão óbvio e que poderia ter usado e não o fiz?

Que erros terei de cometer para recordar aquilo que já sabia e não reconhecia? Não, não há dramatismo nem pesar nesta constatação, apenas alivio por saber que cheguei lá. Pelo menos a esta parte do percurso. Muitas mais estarão com certeza à espera… e para isso há que recomeçar.

“venham mais cinco”, mais uma rodada, que eu pago já!

É fácil estar “acordada”, difícil é não estranhar as pauladas.

Corro o risco de parecer senhora de muitas e desencontradas personalidades, mas quem não corre? quem nunca desejou estar longe da sua pele, numa outra, quem sabe mais arrojada ou silenciosa?!

Sinto falta da adrenalina do sexo, da conquista, do falso poder que nos dá.

Sinto falta dos filhos que ainda não tenho e que julgo querer.

Sinto indignação pela falta de conforto (leia-se dinheiro) que tenho e a qual nunca esperei. Simplesmente partimos do principio quando estamos embrenhados na nossa herança, que esta é nossa para usufruirmos e não esperamos as pauladas.

Ali estamos nós, como crianças, olhando os doces do outro lado do vidro, intocáveis quando momentos antes nos lambuzávamos.

Tão perto…